domingo, 18 de julho de 2010

Nenhum tapinha...

Sobre a polêmica emenda ao ECA, projeto da Deputada Maria do Rosário que prevê o fim do castigo corporal, e a reflexão acerca dos diversos posicionamentos a respeito do assunto.

Primeiramente se faz necessário destacar que esta surpresa quanto a uma inadmíssivel intromissão do Estado na vida privada das pessoas não passa de ingenuidade. Ora, a função do Estado é, justamente, intrometer-se, se assim não fosse não haveria Estado! A necessidade de arbitramento das relações humanas existe desde que o homem passou a viver em grupos. Se a criação deste sujeito fictício (Estado) só se deu depois, é outra coisa, mas que a necessidade se fazia necessária já naquela época, se fazia...
Intromissão (abitramento) não significa ditadura, nem início dela. Ademais, ao falar-se em ditadura deve-se tomar cuidado para não banalizar fenômeno tão triste. Só quem passou por uma ditadura sabe o que ela representa e não é o controle do Estado com o objetivio da abolição da violência como modo de imposição de limites que irá tornar um governo ditatorial ou não. 
É compreensivel que a maioria das pessoas assumam o lado contrário da lei pois a palmada é tão legítima e tradicional (ou mais) quanto a palmatória era, porém, legitmidade e tradição não configuram, necessariamente, uma situação/conduta positiva. A tortura, por exemplo, era legítima, a ditadura e o Auschwitz, também.... Por isso, acredito que no instante em que professores guardaram as varinhas, muitas pessoas pró-palmatórias pensaram exatamente da mesma forma em que pensam as pró-palmadas.

Medir o que é violência e o que náo é passou a ser uma análise muito complexa. Tapa no rosto não pode, na bunda sim, na barriga não, nas pernas sim? Espancamento não pode, mas palmada moderada sim. O que é palmada moderada? Para uma mulher de 50 kg é uma coisa, para um halterofilísta é outra. Sorte a do filho da mulher de 50 kg...

O desenvolvimento da ciência, do estudo do corpo e do intelecto humano tem que servir de alguma coisa! Se a psicologia de um modo geral, e principalmente a infantil, evolui dia-a-dia, por que temos que nos agarrar em hábitos medievos achando que um tapa educa mais do que o diálogo, seja quantas vezes necessárias esse dialogo se faça repetir.

Não há dúvidas de que a palmada é mais fácil, mais rápida. Porém, finalizar um diálogo, ou nem começá-lo através da palmada é o meio pelo qual o adulto se coloca como ser superior, inclusive fisico, para estabelecer uma situação de temor, respeito e obediência... Mais ou menos como fazem os adestradores de animais. Aquele que bate não se da conta que o meio pelo qual busca o respeito e a obediência, muitas vezes, acaba por obter apenas o medo e o distanciamento. Filhos que apanham de um só dos pais acabam por ter uma relação muito mais próxima com o pai que nunca o bateu.   
Preocupar-se com o prejuízo à educação do filho por falta de palmadas é a preocupação mais vazia que um pai pode ter. A única coisa que a palmada ensina é que um adulto pode por fim a um diálogo no momento em que quiser.
Pais, ensinem que vocês exercitarão a palavra e a paciência ao invés da palmada. Leiam livros, falem com psicólogos, aprendam a educar para que seus filhos sejam, verdadeiramente, educados. 

2 comentários:

Michelle Fagundes disse...

Maravilhosamente bem escrito, como todos os textos que tu escreve. Concordo em ensinar a palavra ao invés da palmada. O diálogo leva ao respeito, infinitamente mais educativo. Discordo, porém, da emenda ao ECA. Mais uma vez, acredito que é coisa do nosso povo, que não tem "noção", já que acredita que tudo que não deve ser feito deve estar escrito, e aquilo que não está escrito pode ser feito. É triste ver esse tipo de atitude, mas ao mesmo tempo, o que esperar de um mundo onde metade dos seres "humanos" luta pela sobrevivência, não tendo tempo nem sorte para viver. Acredito que levaremos alguns bons anos ainda para alcançar a ideia de sociedade justa e educada, que respeita o próximo porque vem do coração e, lógico, da educação respeitar, não porque o Estado disse que eu devo agir assim. Políticas de aproximação dos pais com seus filhos e as escolas funcionariam melhor, na minha opiniäo. Ajudem a salvar as futuras gerações! Pais, sejam amigos de seus filhos, dos professores de seus filhos e dos amigos dos filhos. São eles que passam a maior parte do tempo com os seus "pequenos". Enxerguem os seus filhos! Abracem, beijem, estejam na vida de seus filhos! Com certeza a palmada, assim, não terá qualquer necessidade.

Anônimo disse...

quanta bobagem