Quando Miguel Gonçalves Mendes propôs a José Saramago (que, num primeiro momento, recusou, mas diante da insistência do diretor, aceitou) fazer um documentário para acompanhar a elaboração de um de seus livros, provavelmente, não tinha em mente fazer um filme de amor.
É possível que a ideia de retratar a intimidade do casal tenha surgido a partir da proximidade que o diretor passou a ter com os dois. Foram três anos acompanhando Saramago e Pilar, porém ,o diretor, que acredito ser um bom observador, deve ter notado o carinho que um tinha com o outro logo de cara, (assim como fica na cara, logo nas primeiras cenas que registravam as ações mais cotidianas, como atender o telefone, ou as situações mais atribuladas, como decidir atividades profissionais, estavam sempre os dois a acarinharem-se as mãos ou, ainda, a chamarem-se de “mi amor”, inclusive em meio a uma discussão que o diretor teve a sorte de registrar – digo sorte pois quando se tem uma câmera apontada para nós, independentemente do tempo que essa câmera está nos mirando, se evita qualquer atitude que julguemos imprópria de ser gravada, o que, para um casal, imagino, seja o registro de uma 'briga'). Diga-se de passagem, "mi amor" é a expressão mais dita pelo portugues, a segunda é "ó pá" (é curioso como Saramago, escritor reconhecido por ter uma escrita difícil, rebuscada, por diversas vezes, se mostra repetindo essa típica expressão popular portuguesa, quase como se fosse um vício, uma gíria que gruda na boca do adolescente e não sai mais).
O filme é poesia, é beleza, é digno de Pilar e Saramago, e é a consagração do ditado: “por trás de todo grande homem, há, sempre, uma grande mulher”. Pilar é forte, feminista, inteligente, e não poderia ser diferente, Saramago não se envolveria, durante tantos anos, com uma mulher que não tivesse essas características.
Os (poucos) 124 minutos de filme mostram o casal-exemplo, que se respeita, que se dedica, que perde a paciência e briga às vezes, mas que é cúmplice, companheiro e sedento por conhecimento, pela crítica e por fazer a diferença. É um casal que, apesar dos trinta anos de diferença, não há como imputar a nenhum dos cônjuges a (preconceituosa) característica de interesse, no sentido pejorativo da palavra, pois é visível os elementos de ambos que atraem um ao outro.
O filme é muito bom, íntimo, simples, tocante, principalmente pelo fato de ter sido lançado após a morte do escritor. Saí do cinema leve. Recomendo, ainda que a distribuição em Porto Alegre tenha sido péssima, sendo exibido em apenas uma sala de cinema e em único horário (17h30 minutos), vale a pena!
Um comentário:
O filme é de mt bom gosto mesmo.
beijos
gregorio
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